sábado, 11 de fevereiro de 2023

Reencontro

 Às vezes são precisos acasos para que as coisas voltem a acontecer. 

A memória de uma midia  me trouxe uma página antiga do blog.

Vamos recuperá-lo. É o tempo certo. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Ryo Murakami



"É muito ruim perder contemporâneos". Esta é a observação lacônica que faço para Márcio. Não sei me relacionar com a morte.
Pela primeira vez falo da minha experiência com a morte de contemporâneos. Falo com ele para tentar ajudá-lo. Possivelmente para me ajudar a mim mesma. É quase um exorcismo.
A primeira vez que encarei a morte tinha 11 anos e estava fazendo um curso de três meses - admissão - para fazer provas para o 5º ano, era obrigatório, ou teria que cursar um ano extra com o mesmo nome - Admissão.
A Marli foi atropelada na Av. Amazonas naquele ponto onde começa a rua que vai para a Nova Sintra. 
Andávamos muito a pé naquela época e íamos sempre pela linha do trem até mais ou menos aquele ponto. Ali atravessávamos a Amazonas para ir para a exposição de gado, ou para pegar o ônibus para o Barreiro, etc
Fui ao velório, o enterro não lembro. Vê-la no caixão era a coisa mais esquisita que já senti. A casa dela permanece igualzinha na Rua Campo Formoso. Passe quantas vezes passar para lá e para cá sempre lembro dela.
Estávamos de "mal". Coisa de meninas, nem me lembro porque, pedi-lhe perdão.
O meu avó morreu eu também tinha 11 anos, ele morreu no dia 1º de maio, sofri bastante e lembro de todos os detalhes, não sei se foi antes ou depois da Marli, mas a morte dela foi diferente.
Quando estava na 7ª série morreu o Geraldo. Eu me achava apaixonada por ele desde a 6ª série. Ele morreu de leucemia, foi muito esquisito.
Durante o 1º ano da Escola Técnica morreu a Mônica, também de leucemia, era gêmea com a Cristina, fui ao velório, estava tão branca ... Também foi muito ruim.
Com o passar dos anos perdi amigos longínquos, não amigos, conhecidos, era como um soco no estômago e a sensação de ter comido demasiado.
Relembrei o enfarto fulminante da Margarida que só tinha 37 anos e trabalhava na Universidade de Viçosa.
Rosane foi mesmo muito difícil, mesmo sabendo que ela estava com câncer. Havia uma esperança
Talvez os nossos contemporâneos morrerem nos lembrem a nossa falibilidade de forma muito clara.
Muitas vezes me surpreendo com coisas que vão me acontecendo: lembrei do Ryo a semana passada ao arrumar um móvel que não podia arranhar. Lembrei da carrinha alugada para a rodagem do Zero Hour e da entrada na bomba da gasolina - arrandela..
É muito triste saber da sua morte. Um jovem diretor de fotografia muito talentoso e muito apaixonado pela sua arte. Fica a minha homenagem a ele e a sua família.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Imcompreendida

IMCOMPREENDIDA

Margarida sobe a rua em direção ao mercado.

Vira a esquina e desce a rua principal  saltitando. Entra no mercado… Nada, ninguém hoje tem taioba, há de tudo: couve, repolho, mostarda, almeirão, serralha. Taioba não. Mas a mãe encomendou isso.

Nas oito bancas, no açougue, todos a conhecem, fala com todos. Zé Roxo, Nosito, amigos do pai de longa data, tem por ela um afeto especial.
Muito branquinha, cabelo comprido, fininho, cor de palha, as sobrancelhas são escuras, mas o conjunto lhe dá um ar frágil.

A”princesa do bairro” como diz uma vizinha, numa região onde as loiras contam-se pela metade da metade dos dedos de uma mão, tal adjetivo é inevitável. Faz sempre os papéis de princesa, de portuguesa, de europeia, nas representações na escola.

Nosito repete sempre para casar na casa dele, escolha não falta já são 6 filhos, e todos homens.

Zé Roxo na sua simplicidade refere o seu encanto por aqueles cabelos loiros “cacunda” abaixo.

De repente, vindo de não se sabe onde, alguém comenta que na chácara do outro lado do rio Arrudas há taioba, imediatamente ela põe-se a caminho.

Desce a Rua Ibiraci, contornando o mercado, passa abaixo da própria rua um quarteirão abaixo, desce vários quarteirões, atravessa a ponte sobre o Arrudas e  depois caminha ora ao lado, ora em cima dos trilhos da linha férrea. Não sente medo, não conhece o perigo, fareja flores e borboletas.

A chácara vende-lhe um belo molho de taioba. Volta feliz, aos saltos como sempre, caminhar a passo normal é coisa que não conhece.

Vira a esquina da sua rua e olha para cima, estranho, a meio da rua há imensa gente, um ajuntamento, a medida que sobe ouve o ruído das vozes mas antes que chegue próximo o suficiente para ouvir o que dizem alguém olha em sua direção e grita seu nome.

Imediatamente abre-se um caminho no meio de toda aquela gente e vê sua mãe amparada por alguém, a soluçar, voltar-se em sua direção, gritar e correr para ela.

Agarra-a, beija-a, e chora e chora e chora.

Margarida tenta mostrar o pobre  e esmagado molho de taioba e nada, a mãe não vê.

De repente os soluços param e a mãe começa a gritar e perguntar onde ela estava e a sacudi-la pelos braços, a taioba já está no chão.

Quando consegue se fazer ouvir no meio de toda aquela gente e diz onde foi, as vizinhas gritam e a mãe perde a cabeça arrastando-a para dentro de casa.

Leva uma surra enorme e só sabe soluçar a dizer que havia encontrado a taioba, nos intervalos a mãe grita que ela demorara duas horas. Não consegue compreender e se sente injustiçada.

Uma vizinha havia perdido uma filha que fora violada e assassinada com sete anos, em São Paulo, ela mudara para Belo Horizonte para fugir dessas lembranças e muito afeiçoada a Margarida vivia a assombrar a mãe desta com a possibilidade da repetição de tal horror.


Hoje quando o filho de mais de trinta anos vem passar um tempo em sua casa, sai a noite e chega muito tarde, ou muito cedo dependendo do ponto de vista, Margarida se preocupa, ela relembra esta história, compreende a angústia da mãe e sabe que também o filho um dia compreenderá. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O cheiro de uma mulher gasta





sim tudo gasto tem cheiro :))
Uma mulher gasta tem o cheiro do seu uso. Depende do uso que ela própria se deu e do que os outros lhe deram com ou sem o seu consentimento. Geralmente tem cheiro de mãe, de cozinha, de amores passados, de estórias contadas, de roupa lavada (aquele cheirinho bom de sabão), cheiro de colo (tem coisa melhor do que colo?), cheiro de amor (dos bons e dos maus), e geralmente não tem cheiro de mágoa, porque uma boa mulher gasta sabe muito bem onde e como enterrar todas as coisas desagradáveis para que elas não deitem cheiro. A minha avó tinha cheiro de vestido preto e branco com flores pequeninas e tinha cheiro de mamão e coco ralado e mesmo em horas menos próprias, menos felizes, os cheiros maus se foram e só ficaram estes maravilhosos, na minha lembrança e de todos os que a conheceram. Procuro ser uma boa coveira de cheiros maus, assim como todas as mulheres que conheço.
E creio firmemente que em todas as circunstâncias, todas as mulheres gastas têm um cheiro de fantasia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

dia dos namorados a sul e uma rosa vermelha





É engraçado como certas lembranças ficam agarradas a nós. Não me lembro seu nome. Era bonito, olhos verdes, paixão de muitas, não minha. Por que? Sabe-se lá.
Ficava na fila para perfurar o cartão da loteria esportiva mesmo que os outros guichets estivessem vazios.
Gostava dele, do meu jeito, não do jeito que ele queria, mas ele nunca disse nada, sempre apreciou o carinho que eu tinha por ele, nunca pediu mais.
Naquele dia dos namorados, que por coincidência era uma quinta-feira, foi ao Tio Patinhas como sempre e aguardou na fila com uma mão atrás das costas. Todos sorriam. Só entendi porque quando ele se aproximou e colocou o que tinha na mão sobre o guichet: uma rosa lindamente vermelha em botão, entreaberta, linda!
Sorriu com o rosto todo, com os olhos que brilhavam e emitiam reflexos esverdeados. Só disse: "Feliz dia dos Namorados. De quem não tem namorada para quem não tem namorado."
Fiz o seu jogo e ele foi embora. Feliz.
Era um presente! Só um presente, cheio de carinho e sem pretensão adicional.
Voltava todas as semanas para jogar. Nunca mais falamos na rosa. Me fez companhia até minha casa no final do trabalho muitas vezes. Nunca falamos em namoro, ele sabia que éramos apenas amigos e compreendia.
Tantos anos depois, neste dia de namorados que não é o mesmo do sul (12 de junho), mas tem o mesmo significado, lembro-me disto. Aquela homenagem ficou para sempre.
Tenho namorado. Espero que tenhas namorada e que estejas bem meu amigo.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

ARMÁRIO QUE SE JOGOU A CHAVE FORA

É verdade, as coisas que amamos vão se limitando, decrescendo, ou melhor as que importam. Viva a adrenalina. O que não mexe conosco não nos faz sentirmos vivos. Em que ponto foi que limitamos?
Meu Deus, a cena do supermercado com dois lineares cheios de cereais - literalmente todos iguais -  é um  momento supremo. Será por que estou a analisar os supermercados e a sua fatuidade ou porque o cereal do pequeno almoço é mesmo superfulo.
Desde a minha infância e o meu cinema poeirinha dos domingos não via com tanto empenho um filme sem mulheres - sem romance - exceção feita a Black Hawk Down.
Apenas meia garrafa de Cabriz 2008, a atenção estava em outro lado, em observar os angulos, as luzes, onde estavam as cameras.
Credo, isto vira mania!

sábado, 17 de dezembro de 2011

Reflexão sobre o Balanço de fim de ano feito por uma parte de mim

Sempre que se faz um apanhado do ano que termina é uma balança daquelas antigas, de dois pratos: o melhor e o pior. Há anos chochos nada de extravagante - anos felizes. Há anos onde os braços pendem mais para um ou para outro lado: anos difíceis, nos muitos bons a dificuldade é segurar o cavalo para ele não disparar. E há anos com coisas mto boas e coisas mto más: na soma e vistos com alguma distância também são anos felizes, é só olhar para o angulo certo, aquele que nos faz crescer.
A solidão é nossa companheira inexorável mesmo quando acompanhados. Vi um documentário na última semana onde se provava que o cerébro precisa de silêncio e solidão(qdo há concentração) para produzir. E que as pessoas que conseguem se sentir bem em sua própria companhia e gostam do silêncio, são mais felizes e mais produtivas.