terça-feira, 18 de junho de 2013

Imcompreendida

IMCOMPREENDIDA

Margarida sobe a rua em direção ao mercado.

Vira a esquina e desce a rua principal  saltitando. Entra no mercado… Nada, ninguém hoje tem taioba, há de tudo: couve, repolho, mostarda, almeirão, serralha. Taioba não. Mas a mãe encomendou isso.

Nas oito bancas, no açougue, todos a conhecem, fala com todos. Zé Roxo, Nosito, amigos do pai de longa data, tem por ela um afeto especial.
Muito branquinha, cabelo comprido, fininho, cor de palha, as sobrancelhas são escuras, mas o conjunto lhe dá um ar frágil.

A”princesa do bairro” como diz uma vizinha, numa região onde as loiras contam-se pela metade da metade dos dedos de uma mão, tal adjetivo é inevitável. Faz sempre os papéis de princesa, de portuguesa, de europeia, nas representações na escola.

Nosito repete sempre para casar na casa dele, escolha não falta já são 6 filhos, e todos homens.

Zé Roxo na sua simplicidade refere o seu encanto por aqueles cabelos loiros “cacunda” abaixo.

De repente, vindo de não se sabe onde, alguém comenta que na chácara do outro lado do rio Arrudas há taioba, imediatamente ela põe-se a caminho.

Desce a Rua Ibiraci, contornando o mercado, passa abaixo da própria rua um quarteirão abaixo, desce vários quarteirões, atravessa a ponte sobre o Arrudas e  depois caminha ora ao lado, ora em cima dos trilhos da linha férrea. Não sente medo, não conhece o perigo, fareja flores e borboletas.

A chácara vende-lhe um belo molho de taioba. Volta feliz, aos saltos como sempre, caminhar a passo normal é coisa que não conhece.

Vira a esquina da sua rua e olha para cima, estranho, a meio da rua há imensa gente, um ajuntamento, a medida que sobe ouve o ruído das vozes mas antes que chegue próximo o suficiente para ouvir o que dizem alguém olha em sua direção e grita seu nome.

Imediatamente abre-se um caminho no meio de toda aquela gente e vê sua mãe amparada por alguém, a soluçar, voltar-se em sua direção, gritar e correr para ela.

Agarra-a, beija-a, e chora e chora e chora.

Margarida tenta mostrar o pobre  e esmagado molho de taioba e nada, a mãe não vê.

De repente os soluços param e a mãe começa a gritar e perguntar onde ela estava e a sacudi-la pelos braços, a taioba já está no chão.

Quando consegue se fazer ouvir no meio de toda aquela gente e diz onde foi, as vizinhas gritam e a mãe perde a cabeça arrastando-a para dentro de casa.

Leva uma surra enorme e só sabe soluçar a dizer que havia encontrado a taioba, nos intervalos a mãe grita que ela demorara duas horas. Não consegue compreender e se sente injustiçada.

Uma vizinha havia perdido uma filha que fora violada e assassinada com sete anos, em São Paulo, ela mudara para Belo Horizonte para fugir dessas lembranças e muito afeiçoada a Margarida vivia a assombrar a mãe desta com a possibilidade da repetição de tal horror.


Hoje quando o filho de mais de trinta anos vem passar um tempo em sua casa, sai a noite e chega muito tarde, ou muito cedo dependendo do ponto de vista, Margarida se preocupa, ela relembra esta história, compreende a angústia da mãe e sabe que também o filho um dia compreenderá. 

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